sexta-feira, 13 de abril de 2012

O ser, não é um desejo...

  
A idade é um posto. Um posto de referência, de saber, de aprendizagem que se acumula ao longo da vida. Pelos lugares por onde passámos, pelas pessoas com quem aprendemos, pelas funções que desempenhámos, e, principalmente, pela contínua formação intelectual e social que, dia-a-dia, aperfeiçoamos.

E, também por isso, em funções de responsabilidade, em domínios de conhecimento, em áreas de amplitude e visão, são mulheres e homens maduros, já com os seus cabelos brancos oriundos dessa caminha individual, que preconizam a gestão e “dão cartas” nos relacionamentos humanos. Com esses homens e mulheres, de cabelos brancos, tenho aperfeiçoado nobreza da avaliação, da tolerância, da análise objectiva, das dialécticas individuais e sociais.

O comportamento humano é complexo. Basta olhar para cada um de nós, e identificar, na nossa história de vida, alguns comportamentos, que, nos dias de hoje, jamais repetiríamos.

Viver, também pressupõe, partilhar. Partilhar a vida com o próximo. Ajudar a que existam mais pessoas no mundo, e que a certa gente seja dada “a luz” da decência e dos limites que, socialmente, se impõe.

Não se pretende converter os inconvertíveis. Nem tão pouco subir à estratosfera de alguns falsos moralistas que ignoram os desígnios da fé, e se esquecem que esses intuitos se sobrepõem aos seus interesses individuais.

A sociedade tem vários desafios. O de diminuir a elevada hipocrisia que se espuma, diariamente, com contornos doutrinais. De dar conteúdo a certa gente que por aí vagueia. De dar utilidade aos meios e discutir temas substantivos. O de permitir que as pessoas só conheçam certa gente, capazes, estes últimos, de também chegarem ao grau de: pessoa…

Esta semana uma reflexão social e politicamente, mais alargada, partilhada. Para todos aqueles que se preocupam em construir e viver numa sociedade de princípios e valores. Para todos aqueles que preferem uma boa crítica a um silêncio mórbido. Para todos aqueles que desejam uma vivência saudável. Para todos aqueles que estão empenhados pelas causas públicas.

Não nos esqueçamos que todos, de todos os partidos e correntes de opinião serão sempre poucos para os desafios presentes e futuros. Pensem nisso.

João Heitor

Há Homens de valor entre certa gente...

Ao longo da vida crescemos pelo convívio com pessoas que se cruzam no nosso percurso de vida, e com quem aprendemos a consolidar os pilares da estrutura pessoal.

Na semana passada faleceu o Padre Abílio Franco. Pároco durante largas décadas na paróquia de Alcanena (terra da minha família materna). Homem íntegro, humano, defensor dos valores do catolicismo, mas, simultaneamente, destemido nas laços que estabeleceu entre a fé e os homens e mulheres de carne e osso.

Há 35 anos o pároco de Ourém recusou o meu baptismo, pelo simples facto dos meus pais, somente (?), serem casados pelo registo civil. O Padre Abílio Franco quando conheceu a situação logo se prontificou a proporcionar à minha família, e a mim, esse momento simbólico. O baptismo. Pelas suas mãos, pelas mãos de um servo de Deus, fui recebido na igreja, confirmando neste acto, o cumprimento da missão que Jesus Cristo deixou ao mundo.

São homens como o Padre Abílio Franco, humildes, disponíveis, simples, que credibilizam as instituições. Neste caso específico, ligando afectuosa e espiritualmente, o Homem aos valores do Humanismo, pelo que de mais puro o mesmo comporta, e se assume nos evangelhos, na Bíblia.

Curiosamente, ou não (lá está), os meus pais acabaram por se unir à luz da igreja católica, 10 anos depois de eu ser baptizado. Obviamente, que pelas mãos do Padre Abílio Franco, numa cerimónia onde as palavras sagradas confirmaram aquilo que a sociedade, há muito, já tinha assumido como um dado adquirido.

Esta reflexão pessoal, mas decerto comum a alguns leitores, transporta-nos para outras questões. Há Homens que se encontram ao serviço das organizações, das instituições, e que a elas se dedicam. Outros há, que, das organizações a que pertencem, pouco ou nada acrescentam. Na função pública, no sector privado, na igreja, nas funções liberais, há Homens que nem sempre honram as nobres funções profissionais, que lhes estão sujeitas.

Porém, na vida, e até que a nossa memória se apague, recordamos Homens como o Padre Abílio Franco. Homens à frente do tempo, de generosidade reconhecida, que com estima e saudade, deixam a sociedade mais pobre com o seu desaparecimento físico. Outros há, que, serão esquecidos, ou, lembrados pelas piores razões. Também, assim é o mundo, justo.

João Heitor

quarta-feira, 21 de março de 2012

Num outro dia de poesia...

Esquece a poesia Mulher de Deus.
Tu que és brilho e intensidade poética viva.
Correm-te nas veias todas as palavras do Mundo.
Seguram-te o sol e aquece-te a terra quente.

Não comemores este dia Mulher de Deus.
Tu que dás à luz nossos filhos.
Que acalentas o sorrir por cada beijo.
Que alimentas o futuro em teu leito materno.

Poesia, Mulher de Deus e do Mundo.
És nossa mãe em sentir.
És nossa companheira de viver.
És nossa inspiração a escrever.

Poesia num fervilhar de imensidão.
Mulher numa linha de união.
Que Deus soube criar.
Que com Fé o homem quer amar…

São estas e outras as poesias mil,
De encantos e tristezas. Ontem e hoje.
Porque o amanhã, a poesia não pode tocar.
Ela é o sentir presente que a cada dia vou agarrar...

João Caldeira Heitor

sexta-feira, 16 de março de 2012

Por onde andas?


Pensava eu, em ti.

Agora que a noite caiu.

Incerto, pensei.

E de tanto questionar, deixei-me levar.

Pela memória do teu som nos meus sentidos,

Pela memória do teu olhar no meu caminho.

És liberta em cada voo.

És simples em cada traço.

És leve em cada toque de agitar.

És um doce lugar onde me posso imaginar.

Onde me posso perder.

Vou voltar a esperar,

Que perto de mim venhas poisar,

Que perto de mim, te deixes contemplar.

Não te percas.

O tempo demora a passar,

Mas nele eu posso encontrar,

O motivo para sorrir,

O motivo de deixar de ser,

Para outro mundo entrar,

A voar...

João Caldeira Heitor

Para mim...


Caem as gotas de sal, rosto abaixo.

Naquela pedra, na rocha molhada.

Ao sabor do mar.

Ao toque da musa que nela se apoia.

Salpicos de vida em energia recordo.

Em cada memória de espírito.

Em cada vida de corredor em corredor.

Em cada fechar de porta.

Em cada percurso de olhos baixos.

Que me lembre…

Deles e de nenhuns, outros, diferentes.

Abro os olhos um dia mais.

Pensando na água de sal, de gotas salpicadas.

As que me arrefecem o rosto.

As que me trazem de volta.

Ao sonho real.

Ao desejo de esperança.

À esperança de cada grão.

Na areia da praia, que a ti pertence.

Eu vou-me lembrar.

Desse tempo...

João Caldeira Heitor

quinta-feira, 15 de março de 2012

Há qualquer coisa de especial...


É o caminho do mundo,
Onde me encontro,
Onde me reparo,
Onde me escondo.
 
 
Nas noites quentes,
No silêncio da lua,
No pensar flutuante,
No respirar sussurrante.
 
 
Eu sei desse olhar,
Eu sei dessa andar,
Eu sei desse abraço,
Que o mar me quer dar.
 
 
 Perde-se o sono,
Que nunca chegou,
Que não me acalmou,
Que por ti teima em chamar.
 
 
Eu não quero lutar,
Não quero chorar,
Não quero vencer,
Só para te poder amar...


 
João Caldeira Heitor

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

As ciumentas pedras...


Correm dias e meses.
Nascem flores e derretem velas.
Deseja-se algo, para o qual não se luta.
Inertes ações. Sumptuosos pensamentos caem pela terra fria que o tempo impõe.
Estalos de dedos são silêncios que os desejos calam no ápice dos minutos que marcam.
Mais do que isto ou aquilo, o sentir vem de dentro.
Mais do que procurar as palavras certas, e certas palavras, no horizonte, elas sairão, sempre, de dentro de ti, de mim.
Só o querer é energia de hoje.
O vazio do ontem não molha a flor, não acende a vela, não acalenta o desejo.
Encontro estas palavras entre as linhas das estrelas que já me fizeram, e fazem a cada noite que com elas penso, e nas outras todas em que delas me esqueço...

João Caldeira Heitor

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Nós Chegamos!


Comemorámos o centenário dos Bombeiros Voluntários de Ourém, com a dignidade que um ato desta dimensão exige, pelo reconhecimento do esforço de todos os homens que ao longo dos últimos 100 anos assumiram o lema “vida por vida”.

Um dia repleto de palmas, de brio, de pessoas que encheram as ruas da cidade, o quartel, o cineteatro, o centro de negócios. Estiveram presentes os rostos das entidades concelhias, os congéneres de Caxarias, Fátima e do país, e os nossos concidadãos, que, nos momentos de aflição recorrem aos Bombeiros Voluntários de Ourém.

Não esteve o Presidente da República. Não esteve o Ministro da Administração Interna. Não esteve o Secretário de Estado da Administração Interna. Lamenta-se? Sim, lamenta-se. Mas, não fizeram falta! Registamos. Mas, não esquecemos! A devido tempo relembrá-los-emos do desprezo que nos concederam. Porém, estiveram presentes os homens e as mulheres do concelho que de lágrima no olho, de sorriso rasgado viveram o momento pela memória colectiva de que todos fazemos parte.

Ourém, e as suas gentes têm capacidade, energia e uma mais-valia que se assume, em cada um de nós, como a força dos protagonistas dos novos tempos de combate à crise e às dificuldades crescentes, que assumimos com frontalidade.

Nessa mesma frontalidade, com esse mesmo indicador, estamos a proceder à revisão do PDM, registamos o reforço do apoio domiciliário e de novas estruturas de apoio social com serviço de lar e creche. Nessa mesma energia, e capacidade, estamos a desenvolver uma estratégia para o sector económico do concelho com a criação de um ninho de empresas e os balcões descentralizados em Caxarias, Freixianda e Olival, na concretização da proximidade efectiva entre os cidadãos e as estruturas. Com essa mesma energia concretizámos novos centros escolares e lançámos novas construções numa aposta na educação sem precedentes ou histórico comparável.

Parabéns aos Bombeiros Voluntários de Ourém, aos seus dirigentes e aos cidadãos do concelho. Somos o espelho da nossa coragem, da motivação e da conquista que juntos alcançamos. Esse é o desígnio, e o que conta, no dia-a-dia das dificuldades que superamos. Continuemos, assim!

João Heitor

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O tempo da vida


Nos dias de hoje há duas opções distintas e determinantes: ou nos resignamos à crise e com ela nos deixamos levar como uma folha é movida pelo vento, ou, cerramos os punhos e lutamos. Entre uma e outra situam-se aqueles que apontam o dedo à ferida sem a querer tratar, ou, os que a procuram sarar.

Este é o tempo de fazer renascer a esperança no futuro imediato, próximo, que na volatilidade dos dias apresenta-se, muitas vezes, já amanhã…

Um amigo relembrou-me a recente ocorrência do Solstício de Inverno. É o momento do ano em que as noites diminuem e passa a existir um conquistador aumento do dia. Do dia que se afirma na luz, na alimentada confiança de cada um, e de todos nós. Talvez não seja coincidência que os povos das regiões do globo onde o sol espelha a sua luminosidade mais dias no ano, sejam mais afáveis, positivos, alegres e com uma energia contagiante.

O Solstício de Inverno pode (e deve) ser o ponto de viragem, o momento da esperança em que o Homem germine novas posturas, nas suas relações entre os seus pares, e com a natureza.

Muitas ameaças pairam sobre todos nós: as reais, as fictícias, as inimagináveis e as conspirativas. Não, não são umas quaisquer tipologias ou graus da língua portuguesa. São mesmo as que resultam das mentes brilhantes, das imaginárias, das diminutas e das mesquinhas que, ao nosso lado, na nossa terra, na nossa região, no país e no mundo se julgam incólumes a qualquer sanção, e, ainda, detentoras de benefícios exclusivos.

Todos nós somos descartáveis assim que deixemos de ser necessários. Iludem-se aqueles que se julgam possuidores da razão, do conhecimento privilegiado e que menosprezam a vigilância constante que as mentes livres aplicam em silêncio.

Fórmulas mágicas e pessoas perfeitas existem nos filmes e nos contos de fadas. Na vida real distinguem-se os que têm humildade para ouvir, partilhar e unir esforços, de todos os outros. Mesmo que todos os outros sejam felizes à sua maneira, perdoam-se as suas posturas pela igual capacidade que Jesus Cristo nos deixou enquanto exemplo de vida. É também por isso imperioso que se invistam os minutos e as horas a construir e a emendar, a apontar, a percorrer o caminho e não a queixarmo-nos das pedras que nele encontramos...

Filosofia? Não. Realidade. A que nos obriga (por sermos dotados de conhecimento) a agir pelos superiores desígnios das relações humanas de que fazemos parte. Utopia? Não. Até porque se não tentarmos “fazer” e “ser” de forma diferente, jamais merecemos (ou teremos) outra oportunidade nesta vida que é só uma…

João Caldeira Heitor

sábado, 24 de dezembro de 2011

Bom dia, pai!


Bom dia pai. Chega o Natal e com ele a simpatia natural de alguns, misturada com as boas aparências de uns quantos outros. A economia impera e comanda os homens. Os de discernimento, e os aéreos do costume. Por vezes tenho dificuldades em encontrar-me. Não porque tenha deixado de confiar e acreditar na linha que me guia no horizonte, mas porque tais são as voláteis ocorrências noticiosas e factuais, entre todos as outras, onde por vezes me perco (ou me deixo absorver) nesta dita sociedade em que os dias voam por entre papéis e fórmulas mágicas para construir, refazer, criar e inventar soluções nos problemas dos outros, que, solidariamente, também são os meus.

 Eu sabia não ser fácil. Nunca pensei era que podia ser tão difícil. Estás a imaginar seis remadores dentro de uma balsa, das antigas, em que dois procuram o norte e imprimem o seu suor para lá chegar em cada braçada que a energia lhes dá, mas, outros tantos estão parados (sendo por isso um peso penalizador para os outros dois esforçados), procurando os restantes o sul, disfarçadamente, com laivos de incoerência, maldade ou simples desnorte? Já lá estive. Na balsa. Saí cansado. Não cheguei ao destino. Sei que nunca o alcançarei. É demasiado distante, o sonho para concretizar, quando o caminho das pedras faz mais do que castelos ou muralhas no oriente da China.

Lá em casa a mãe está bem. Ainda que constipada. Apura-se na arte de cuidar dos seus (talvez com demasiados mimos junto da Leonor) em cada dia, em que a noite já superou o nascer e o correr do sol pelo dia vivido. Tem mais cabelos brancos, como todos nós, mas não deixa de ter presente aquela sua peculiar forma de ser e de estar.

Os teus amigos, e aqueles que desde que partiste dizem ter sido sempre teus amigos – mas que de conhecidos nunca passaram – dizia, os teus amigos vão como as folhas das árvores nas quatro estações do ano: incertos como o tempo. Alguns deles lutam pela vida, outros já por aí te acompanham. Felizes à sua maneira, os que aqui nos alegram com o seu sorrir, como cada um de nós, ou infelizes pelas curvas dos caminhos e das partidas que os dias e as noites nos pregam.

Olha, há ainda aqueles, outros, de línguas simétricas correspondentes aos pensamentos e actos similares da descrença, do escárnio e do maldizer. Não, não são actores de um qualquer auto de Gil Vicente. São mesmo fiéis às suas características e químicas composições, que nada mais podem dar aos dias deles, e dos outros que com eles se cruzam.

Por escrever a palavra cruzar. A Leonor fala em ti com frequência. Não te conheceu ao vivo, mas numa destas noites, já perto das 12 badaladas, disse-me que a caminho de casa te tinha visto. No céu, numa estrela, onde estavas a olhar para ela. Confesso que as lágrimas jorraram cá dentro, mas com um sorriso, confirmei-lhe que tu estavas mesmo lá – aí – a olhar por ela, tal como quando aqui viveste, dos teus cuidaste e protegeste.

Já tive mais medo da morte, sabias? Será da idade? Não deixo de ter a paixão de viver, mas sinto na Leonor a continuidade da vida, pelo bater do coração, pela razão dos afectos e na missão que dizem termos nesta terra de pé.

Sabes que continuo a ser muito emotivo. Pena não ser de lata, às vezes. Mas por mais que respire frente ao espelho não consigo embaciá-lo de forma a disfarçar a carne e a sensibilidade que me compõe. Olha, outra coisa. Tenho seguido aquele teu conselho que em tempos considerava ser ”uma seca”. Ouço mais do que falo. Sei que assim aprendo com o que os outros dizem. Separo o trigo, do milho, do centeio. Não, não quero um moinho. Moinhos de vento já são as metáforas que consomem os dias em que nem uma ténue alegria se desperta no trabalho. Se ando cansado? Ando. Escrevo-o com realidade. Não consigo chegar a tanto sítio, a tanto caminho que se fosse percorrido por mais uns quantos, daria uma bela fotografia de apreciar e valorizar. Mas está frio, sabes? As lareiras convidam ao refúgio no Inverno. As praias às escapadelas no Verão. Os passeios ao rebentar da Primavera. E no Outono, tudo cai, novamente em que o retemperar de energias os deixa inertes. Talvez eles tenham razão. Mas, lembraste de quando pela calada da noite saia sozinho para ir ter com mais uns quantos (loucos, mas sãos, rapazes) que perseguiam um sonho, e me dizias que o frio lá de fora obrigava a vestir um casaco quente. Pois bem. Percebo que a tua preocupação não se prendia com a temperatura da rua, mas sim com a protecção da integridade, com a defesa da consciência, com o desejo de me teres mais tempo, por perto. Devia ter ido à pesca mais vezes contigo. Era sempre depois, um dia, logo combinamos. Ando a cometer os mesmos erros. Não estou com os meus amigos, nem sempre dou mimo à mãe, e quem me ama sente a minha ausência. Valerá a pena tudo isto, quando na hora da dor ou deles estamos rodeados, ou o vazio nos preenche?

Tenho olhado as queimadas desta época. Começam por ser uma quantidade cúbica de matéria, que em combustão liberta fumo e calor, acabando por ficar em matéria de cinza que assenta no chão frio. Talvez deva apreciar mais o pó, até o dos móveis, que repousa, nos olha e vê passar, a correr, numa labuta desenfreada como se de uma maratona se tratasse, sem que no final qualquer medalha ou pódio exista para ouvir as palmas que outros não estavam presentes para bater.

Sim continuo a acreditar no que a vida pode ser, pelo sonho que a comanda, mas (há sempre um, um dia, um eterno “mas”) mais do que difícil, o sonho não passa disso mesmo: de um conjunto de desejos entrelaçados em lugares, ligado pelo calor das pessoas que deles e por eles fazem criar a cadeia de união que os efectiva. As cadeias, de união, de fragmentação, de explosão e de umas quantas outras equações físicas e matemáticas acabam sempre por dar o mesmo resultado: ser. Não é o ser de existir. Mas sim o ser de sermos. Só é, só somos, só vemos ser quem se dá, quem se partilha, quem se entrega à missão da vida. E depois, nessa, nesta e em todas elas, varia, implícita e efectivamente, a vontade de cada um.

Desde que te escrevo que já vi a noite a deitar-se e o sol a nascer. Hoje é Natal. Á noite voltarei a pensar em ti, naqueles momentos de silêncio, em que só um filho e um pai percebem e sentem.

Se este texto devia ficar guardado? Devia. Até porque a protecção do nosso ser passa por não expor as nossas fraquezas. Mas, como humano que sou, não posso esconder ou reservar aquilo que decerto, muitos como eu recordam na saudade pelos seus, e vivem o dia-a-dia de altos e baixos, como a geografia da terra onde respiramos e somos, nós…
João Miguel

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Na dúvida? Na dúvida é melhor perguntar!


Nem com ajuda nos textos escritos, com espátula, pincel, ou conselhos de doutores de barba rija há quem perceba que nem sempre o que parece é, ou, o que é parece ser, seja...
Na dúvida, devia lamber…lamber papel e orientar-se…

(com o devido respeito aos pasteleiros, professores e pedreiros)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

9 anos depois...



9 anos depois, há datas, como a de hoje, que pesam mais o olhar, que apertam mais o coração, que molham mais a menina do olho. 
Aquelas datas que resultam dos laços afectivos e de sangue, que resultam da memória presente de quem nos fez chegar ao mundo, nos educou e nos ensinou a crescer... 
Presente, até que um dia também chegue a nossa hora, de pelos nossos sermos lembrados e recordados no que de bom fazemos e damos aos que nos rodeiam... 
Até porque, essa é a essência da vida...

João Caldeira Heitor

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Doce, sexy e sensual... :)


Sete e meia da manhã. 
Uns pequenos raios de sol entravam pelas frestas dos estores do quarto.

Suficientes para um maravilhoso ser entrar porta dentro e se abeirar da cama.

Fê-lo, suavemente, enquanto pousou as mãos na base da cama e se aproximou de mim.

A ponta dos seus cabelos começo-me a tocar.

Senti pequenos beijos pela cara toda.

Tal e qual como lhe fiz, e faço, para a adormecer.

Ao abrir um olho, deparo-me com uma meiga e terna face que sussurrando me dá os bons dias, pedindo, ao mesmo tempo para entrar dentro da cama, na troca de mimo e afecto.

Estes momentos, únicos nas nossas vidas, revelam o amor entre pais e filhos.

Cada um da sua forma.

Dizem que passa rápido.

Mas, por mais que olhe a pequena Leonor nos olhos, não deixo de sentir aqueles beijos espalhados pelo rosto num momento inesquecível…

João Caldeira Heitor

Na penumbra do descrédito...


Estratégias nos dias de hoje…

A cada dia que passa o pronome “eu” é mais utilizado em detrimento do pronome “nós”. Parece existir, em certa gente, uma tentação para afunilar as atenções, os olhares do mundo na direcção do seu umbigo.

Limitados de horizontes são aqueles que de um grão de açúcar querem, e pensam conseguir fazer um bolo. Desejam, simultaneamente, que quem os rodeia e venera acreditem em tais miudezas, em tais cenários idílicos. Como se as pessoas não tivessem capacidade de discernimento.

Aristóteles referia a grandeza do Homem pela sua moralidade. A moralidade que não precisa de ser pronunciada pelos nossos lábios, mas que existe dentro de cada um, e é expressa pelos nossos actos, posições públicas e individuais. Essa é uma das grandes diferenças que existe entre os Homens que fazem História, dos outros. História essa tantas vezes injusta e madrasta, que retém na memória colectiva um episódio negativo, relegando para segundo plano méritos projectos. Mas, assim crescemos, conhecemos homens e mulheres nas nossas ruas, terras, no nosso concelho, neste país.

Mais estranhos, e incompreensíveis se afiguram aqueles que, insistentemente, pautam a sua acção pelo contínuo descrédito, pela maledicência das palavras, pela pequenez de práticas e posturas. Há quem defenda que tais personagens jamais souberam estar de outra forma na vida, e que de construção pouco ou nada se lhes conhece. Também não consigo, nem quero, avaliar tais produtos em banca, como se de uma feira de vaidades, ou palcos de fotografias se tratasse. A política e a sua nobre função exigem responsabilidade, integridade e verdade.

Paralelamente, podemos alvitrar a inexistência de tais atributos, que em vários textos, na Bíblia, nas confissões e nos pensamentos de almofada tão límpidos contrastes encontramos entre o “ter” e o “ser”… Há quem muito tenha, sem que alguém seja, sem ser reconhecido como relevante, válido ou fulcral junto daqueles que detêm a honra de tal distinção.

As lições de vida não são aquelas que nos ditam, que nos mandam espalhar, que nos escrevem, que redigem na surdina das estratégias individuais ou de clã. É a própria vida que se encarrega de as ilustrar, de as fazer viver e sentir. Em nós e no íntimo que compõe a nossa integridade deve existir a linha que separa os limites, que define as condutas…

A humildade individual (que muitos apregoam possuir perante a sociedade onde somos ou pensamos ser alguém), exige um respeito partilhado com os outros, e assente em pilares de honestidade intelectual.

Os grandes estadistas foram e são aqueles que souberam crescer, amadurecer e aprender com os outros. Só assim se consegue ser, pessoa, neste mundo de gente...

João Nos dias de hoje há duas opções distintas e determinantes: ou nos resignamos à crise e com ela nos deixamos levar como uma folha é movida pelo vento, ou, cerramos os punhos e lutamos. Entre uma e outra situam-se aqueles que apontam o dedo à ferida sem a querer tratar, ou, os que a procuram sarar.

Este é o tempo de fazer renascer a esperança no futuro imediato, próximo, que na volatilidade dos dias apresenta-se, muitas vezes, já amanhã…

Um amigo relembrou-me a recente ocorrência do Solstício de Inverno. É o momento do ano em que as noites diminuem e passa a existir um conquistador aumento do dia. Do dia que se afirma na luz, na alimentada confiança de cada um, e de todos nós. Talvez não seja coincidência que os povos das regiões do globo onde o sol espelha a sua luminosidade mais dias no ano, sejam mais afáveis, positivos, alegres e com uma energia contagiante.

O Solstício de Inverno pode (e deve) ser o ponto de viragem, o momento da esperança em que o Homem germine novas posturas, nas suas relações entre os seus pares, e com a natureza.

Muitas ameaças pairam sobre todos nós: as reais, as fictícias, as inimagináveis e as conspirativas. Não, não são umas quaisquer tipologias ou graus da língua portuguesa. São mesmo as que resultam das mentes brilhantes, das imaginárias, das diminutas e das mesquinhas que, ao nosso lado, na nossa terra, na nossa região, no país e no mundo se julgam incólumes a qualquer sanção, e, ainda, detentoras de benefícios exclusivos.

Todos nós somos descartáveis assim que deixemos de ser necessários. Iludem-se aqueles que se julgam possuidores da razão, do conhecimento privilegiado e que menosprezam a vigilância constante que as mentes livres aplicam em silêncio.

Fórmulas mágicas e pessoas perfeitas existem nos filmes e nos contos de fadas. Na vida real distinguem-se os que têm humildade para ouvir, partilhar e unir esforços, de todos os outros. Mesmo que todos os outros sejam felizes à sua maneira, perdoam-se as suas posturas pela igual capacidade que Jesus Cristo nos deixou enquanto exemplo de vida. É também por isso imperioso que se invistam os minutos e as horas a construir e a emendar, a apontar, a percorrer o caminho e não a queixarmo-nos das pedras que nele encontramos...

Filosofia? Não. Realidade. A que nos obriga (por sermos dotados de conhecimento) a agir pelos superiores desígnios das relações humanas de que fazemos parte. Utopia? Não. Até porque se não tentarmos “fazer” e “ser” de forma diferente, jamais merecemos (ou teremos) outra oportunidade nesta vida que é só uma…

João Caldeira Heitor

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Cruzes canhoto!


Não há novidades nos dias de hoje.
Repete-se o velho que caiu no esquecimento, alterado pelos novos caminhos dos dias.

Há várias formas de estar na vida, dentro dela, fora dela, em sociedade, no mundo individual de cada um, ou no nosso mundo onde os outros parecem estar, e, algumas vezes, errados.
Há quem assim pense, talvez se veja, se deseje ver, pense ser visto, ou se encontre, mesmo, lá.
Por aqui, tenho dito, não moram verdades supremas. Não as tenho, nem as desejo.
Se alguma vez tivesse essa ilusão, teria, decerto, caído no isolamento social e perdido o discernimento.

Ora aí está. O discernimento. Aquele que falta quando as águas estão turvas e não se sabe o que fazer.
Melhor, bom e de boa figura consegue-se na poltrona do sofá, no café atrás de uma cerveja, ou na “má decência” intelectual de certas gentes.

Não vale tudo, nem tudo vale. Até porque o tempo tem-se encarregue de separar a água turva da terra barrenta. E no fim da passagem da peneira todos seremos pó.
Essa finitude carnal é aquela que nos separa da alma, do coração que sente, da essência que nos separa.

Assim, a morte dos afectos, a perda de discernimento, torna-se para muitos como a linha a evitar.

Há vários provérbios, frases célebres ditas por mortais que pereceram, mas que deixaram essas expressões agora na moda da citação.
Eu limito-me a olhar para as estantes do escritório e a pousar os olhos num livro que tanto representa durante uma noite: “Felizmente Há Luar” de Luís de Sttau Monteiro
(ainda somos livres de pensar, sentir, viver e caminhar)

João Caldeira Heitor

domingo, 18 de setembro de 2011

Geometra...

Regressei às palavras escritas, publicadas com tinta, em papel de jornal.

Semana após semana, no concelho de Ourém debruçar-me-ei sobre estruturas e organizações, pessoas e políticas, eventos e projectos, obras, e o valor da pessoa...

Numa coluna que dá pelo nome de: "Geometria das Palavras"...


João Caldeira Heitor


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Ela mesma...

Doce, única e intensa. A vida. A vida que por magia nos dá o bater do coração.

O bater que nos faz voar, beijar as nuvens, tocar as estrelas onde nos perdemos no tempo que é nosso.

Nele ficamos, nele nos entregamos porque assim somos nós...

Fiéis e intensos sonhadores que dos livros fazemos o trilho do respirar.

Na noite quente.

Na fria noite. 

Nas badaladas de cada segundo de sorrir...


João Caldeira Heitor

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Ser pessoa no meio de gente...

As areias finas são como as pedras grossas.

Fiéis à matéria de que são feitas, inalteradas na essência e só quebradas pelo efeito do tempo.

Assim fossem os humanos. 

Inalterados pelos valores.

Comprometidos com a humildade, honestos na sua acção e contrutores do bem comum.

Estas e outras serão as utopias.

Inatingíveis por alguns seres que jamais darão valor ao “ser pessoa”.

Porque para ser pessoa, não basta querer, é preciso ser reconhecido como tal...


João Caldeira Heitor